Stella B.T.
Hoje eu vou dedicar esse post e algumas preciosas horas de estudo a um amigo que eu perdi. Ele não morreu de verdade, por mais que eu tenha desejado isso muitas vezes. Morreu pra mim, mas como todo bom morto volta de vez em quando pra assombrar a gente. Não sei se qualquer dia ele vai ler isso, mas eu vou escrever pra mim e por mim.
É um amigo que desenhou comigo e me ajudou a mudar , e me ensinou muita coisa, desde o processo de fagocitação até que coisas que eu ainda não conhecia da vida. Sentiria que lhe devo alguma coisa se a mágoa não tivesse deixado tão amarelada a imagem que tenho dele. Hoje vou dizer que não me arrependo de nada, mas ontem pensei diferente e amanhã posso mudar de opinião. Mas como hoje é domingo, e ele é fácil como uma manhã de domingo, prefiro deixar assim mesmo.

Esse é um amigo do outro lado do mundo que mora a alguns quilômetros da minha casa. É um amigo de bem longe que se dividiu em dois, e a parte que eu mais gostava ficou lá; era a parte que gostava de mim. Essa parte eu nunca vi e acho que nunca vou ver. Eu sei que o tempo já foi e não quero que volte. A única coisa que me magoa é que, se o tempo estivesse a nosso favor, teria sido uma história diferente- e com um pouco menos de atrito no final.
Esse amigo é desconhecido pra mim, por mais que a gente tenha se visto. Alguém algum dia disse que "timing is everything". Não posso concordar mais.
O que me fez lembrar dele foi, além de um SMS enigmático às 23:30 de sexta, um vídeo que um dia nós assistimos. Eu entendi mais do que aconteceu agora, e por mais que tenha achado (e acho) um pouco ridículo, me lembra de tudo pelo que a gente passou e me mostra o caminho que eu segui e ao qual , hoje, estou tentando me ajustar. Eu espero que ele tenha seguido um caminho bom também.

Acho que seria de bom tom pedir desculpas por muitas coisas ruins que eu sei que fiz, mas o pior é que não me arrependo. Pedir por pedir seria arrependimento fingido, e isso não dá com um amigo que detecta microexpressões faciais e distorções na voz.

Foram meses que eu dediquei a uma só coisa, e acho que ele também fez o mesmo. Eu precisava disso e ele também, talvez tenha sido um tipo de protocoperação. Eram horários invertidos e realidades invertidas, e isso evidencia o porquê de tudo ter dado tão errado quando chegamos perto de estar iguais- nunca seríamos. Mas não acho que foi ruim. Doeu muito e eu quis morer? Doeu muito e eu quis morrer. Mas é só quando dói que a gente percebe o que tem de errado, e isso me ajudou- e está ajudando- a me consertar. Foi muito importante pra mim, e está no topo da minha lista de agradecimentos por esse ano. Eu nunca vou esquecer a causa ou a consequência de tudo isso pelo que passei.

Hoje parece um passado remoto, mas se eu visse o álbum de fotos do meu cérebro do começo do ano até alguns poucos meses atrás eu veria que ele aparece em todas elas. Já quis apagá-lo de mim um montão de vezes, mas se fizer isso vai ter um grande branco na história da minha vidinha. Por essas e por outras eu prefiro deixá-lo alí, tocando violão e me chamando de kenga verde,sentado do lado da janela onde não venta mais ou balançando na minha rede.

Por isso eu vou me desvencilhando, pouco a pouco, do que eu queria ter dito pra ele. Vai ter sempre um pedacinho de coisa que não foi dita, que ficou no ar ou que eu queria saber. Mas é esse mistério que eu tanto gosto, e muita gente- acho que ele também- encara como desinteresse. Agora pouco me importa. Já escrevi o que tinha que tirar de mim.
Stella B.T.
Só esperei alguma coisa acontecer. Não sabia o que era, não esperava nada específico. Só fiquei ali, imóvel, e me sujeitei a o que quer que fosse. Não via, não sentia, e o pensamento só não era inexistente por conta de uma fina chama amórfica que persistia em queimar entre o nariz e a testa. Tudo o que eu era naquela hora compreendido entre o nariz e a testa.
É uma sensação de fade out lenta e gradual. As bordas começam a escurecer e a ação se torna mais lenta. E de pouco em pouco eu ia, em fade out, da filosofia ao caos.
Foi o caos mais tranquilo da minha vida, talvez porque eu não estivesse realmente presente, ou talvez porque a morte seja assim mesmo. Uma cascata que goteja, um tiroteio sem ruídos, uma festa sem ninguém. Não vale a pena descrever, é a impressão que fica que você um dia deveria sentir. Um dia você vai sentir, por mais que eu queira protegê-la disso. Não dói, não é triste, e nem espere ver a luz branca. Não espere ver qualquer luz no fim do túnel; não há túnel. Você pouco a pouco se torna inerte, e mesmo que quiser não consegue reverter. É a morte, é o fim, mas você não consegue lutar contra isso; você não quer lutar contra isso. Uma espécie de suicídio involutário, onde a conformação vem junto da meia-luz. Quando a gente morre, qualquer hora vira pôr-do-sol .
Stella B.T.
Provas marcadas: 11
Provas feitas: 9
Horas totais de estudo: 0,2 h
Desmaios: 1
Internações hospitalares: 1
Comprimidos tomados: 12
horas de inalação diárias: 2h
Crises de choro e desespero seguidas de apelos metafísicos e sono pesado: 3
Uni-duni-tês: 1 , em geografia
Band-aids usados: 3
Médicos: 2 e 3 enfermeiros
Dedos calejados: 4
Febre às 5 a.m: 3
Acabar despertando por agentes externos: 6 vezes
Desmaios: 1
Mensages de texto desconexas às 23:30 vindas de quem achei que nunca mais me procuraria : 1
Crises de asma: 1
Viroses provavelmente contraídas em aeroportos: 1
Inscrições para concursos culturais: 1
Participações em concursos culturais: 0
Esperanças : 0
Planos para as férias: 0
Seriados assistidos: 1
Postagens no blog abandonado: 0
Stella B.T.
Acredito que, se não todos, a maioria dos erros gramaticais têm fundamentação lógica. Não consigo pensar em exmeplos, mas me veio na cabeça o famoso "pobrema". Não é um erro qualquer, e sim o resultado de profundas reflexões acerca da sociedade capitalista. Junta-se ao radical pobr o sufixo -ema e tchanã, logo temos uma crítica da condição socioeconômica no Brasil. Problema é coisa de pobre, e pobre fala "pobrema".
Stella B.T.
Quando acontece alguma coisa ruim, ficam todos cheios de poesia.
Não digo poesia de poeta mesmo, de artista. Digo poesia de gente que se mete a poeta e escreve os cúmulos da breguice e do uso das vírgulas, repete exclamações e fala de girassóis, arco-íris, amorzinho e pássaros. Parece que me arranca um pedacinho toda vez que me aparece um pseudo-poeta na frente. ( Que fique claro que eu não me considero poeta, já estou longe de admitir que não sou nada modesta).
Quando alguém morre, por exemplo, vira tudo poesia. Homenagem daqui, exclamações dalí, fotomontagens acolá e o coitado do morto, se visse tudo isso, era capaz de ter um ataque de tanto rir. Todos se tornam pessoas boas depois da morte, é fato. Você pode ser um completo idiota e não ter amigos, mas quando morrer vai ser o cara mais popular e incrível deste mundo- ou, quem sabe , do outro.
Mortes inesperadas garantem mais pontos, principalmente aquelas que envolvem homicídio, acidentes, doenças terminais e a mídia. A Isabela morreu e , de repente, todo mundo era primo do afilhado do avô da tia do pai dela e já tinha visto a pobre menina numa festa de família, coitada, era tão lindinha e inteligente, parecia um anjo e era a graça da nossa família. Oras, duvido que antes de tudo acontecer muita gente não tenha se enchido dela, que inferno, criança não serve pra nada mesmo.

Todos ficam tão fragilizados pela perda de um ente querido que acabam deixando passar a formosura poética de todas as belas frases de amiração póstuma.
"Fulano era tão bom... sabia mesmo viver a vida!" , "Tá certo... Deus o queria por perto pra espalhar toda aquela alegria ", " Ficarão na memória todos os momentos inesquecíveis que passamos com essa pessoa incomparável" . Ah, que bobagem. Quando o cara estava vivo ninguém dizia isso pra ele, e se bobear o coitado nem sabia que tinha tantos "amigos" .

O porquê de tudo isso é o famoso magnetismo do ego. Queremos sempre alimentá-lo com uma ilusória sensação de superioridade, e a repercussão de uma morte trágica sempre dá um certo status ao mortinho em questão. Daí, ao se apresentar como de alguma forma relacionado com o morto, pode-se arrancar um pedacinho dessa carcaça e ficar satisfeito por tempo suficiente até que mais um passe desta para melhor, sempre rezando para não ser o próximo- será que o ego funciona em outras dimensões espirituais?
Stella B.T.

Drogas psicoativas me transformariam num Dalí paraguaio.
Stella B.T.
Te juro que não sei. Saiu assim.
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