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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Ocaso arujanse

Essas são algumas fotos que tirei do pôr-do-sol pela janela do meu quarto. E ainda tem gente que diz que em Arujá não acontece nada.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bigodei novamente


Todos que têm o prazer divino de me conhecer pessoalmente sabem: sofro de bigomania há muito tempo. Esse desenho pode servir de printable: imprima, recorte e saia desfilando por aí. Seria super legal encontrar alguém na rua com um desses (ego? oi?)

O Estado Sitiado

Alimentar, meu caro Watson

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ode aos 1,75m

Acho que a vida perde um pouco de seu lirismo quando uma mulher percebe que ninguém nunca poderia escrever-lhe uma música. Isso foi o que acabei de perceber.

Se o leitor quiser averiguar, sinta-se em casa. Vai perceber que "little girl" , "cute face", "pequena" e "baby girl" são algumas dos zilhões de formas usadas para referir-se às musas em questão. Tudo muito fofo, muito lindo, muito apropriado. Agora, se alguém fosse escrever uma música sobre mim , provavelmente usaria termos como " gigantic girl" , "monstruous face" , "varapau" e "big foot" . Brincadeiras à parte, creio que nenhum homem em sã consciência escreveria uma música pra uma mulher desse tipo. Não que as grandonas não sejam apreciadas, acredito que sejam, mas talvez nossa variedade não inspire muito a poesia nos músicos por aí. Resta resignar-se ou esperar um novo CD da Ana Carolina. Eu não me incomodaria, de maneira alguma. Até que ia ficar engraçado.

[...]Grandona minha

Vou pegar na sua mão de caminhoneiro

E amar você o dia inteiro

Giganta minha

Vou seguir os seus passos 39/40

Até o fim da linha[...]


Nota: Após reler o texto acima, essa foi a impressão que ficou:


Devo ressaltar, então, que pouco me importam meus 1,75m, tenho namorado [edit: tive namorado] e calço 37.

Sem mais.


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Clamco

Acho que deveria existir um clube de pessoas que não se conhecem profundamente mas se amam. Só pra que todo mundo pudesse mostrar que se importa sem esperar muito uma resposta e nem ter que depender do outro. Teria que mostrar o afeto, e pronto.

Talvez seja isso que complica as relações interpessoais : a importância. Se ninguém importasse muito, mas ao mesmo tempo significasse alguma coisa, não seria necessário levar em conta aquela palavra , aquele gesto, aquele tom. Pra falar a verdade, isso pouco importaria. Só entraria na jogada o que vem de você.


No dia em que for bem rica e famosa, e todo mundo acreditar em mim, vou criar um clube desses. Só tem que tomar cuidado pra nenhum engraçadinho achar que é clube de swing. "Clube do Amor Compartilhado" . Altamente sugestivo.

Tem cara de sede, não?

Falando nisso, acho que sede (de sediar) deveria ter acento diferencial pra não confundir com sede (de ter sede). Daria a alma por um copo de água, mas morro de medo de descer pra cozinha à noite e dar de cara com um monstro. True story.











quinta-feira, 28 de outubro de 2010

De camiseta do pai a pretinho básico




Não sei o que é pior: a bagunça ou a minha cara de pseudo-sensual seduction.


1. Corte a gola da camiseta.

2. Entre pela gola da camiseta, passando com a cabeça e ombros (talvez seja necessário alargar um pouco se você for meio Cesar Cielo)

3. Pegue a manga direita e passe por baixo dos pechos, em direção ao braço esquerdo.

4. Faça o mesmo com a manga esquerda, em direção ao braço direito.

5. Prenda com um grampo de cabelo bem grande, ou um alfinete fralda de bebê.

6. Para o decote, use um outro alfinete, só que menor ( uma presilha igual à minha vai te deixar indecente em 2 segundos)

7. Bora pra night



Inútil? Sim.

Frívolo?Ouié?

Virei blogueira fashion? Continuo nerd

Pouco me importa? Na mosca!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dezesseis, dezessete

17.02.2010 , 3h16min

Se começar, certamente continuo. Por pouco não digo que não há como parar quando já se começou. Se bem que, agora que coloquei no papel essa idéia de alguns segundos atrás percebi que discordo do eu que se manifestou mais recentemente. É claro que nunca se para, uma vez que se começa.


E quando paro de pensar, depois que penso

E penso à beça

Vejo que não há como parar,

Uma vez que se começa.


De fato, uma vez que se começa, nunca se para. O que pode haver é um hiato, uma pausa , mas nunca um término definitivo. Mas, se for assim, não estou começando, estou retomando . É isso, retomando.

Mas, então, quando se retoma, o que acontece?

No começo, tudo é mais brando. "Vá com calma, ela só está começando" soa bem, e pode até convencer um homem de meia-idade cuja esposa ficou flácida depois que nasceu o segundo filho a assediar menos a stripper oxigenada que dança no poste à sua frente. Ou não. Strippers servem para serem assediadas.

E eu? Não gosto de me comparar a uma stripper. O mais perto que já cheguei foi uma vez que, no metrô, perdi o equilíbrio e escorreguei pelo mastro. O peão suado atrás de mim quis colocar uma nota do meu bolso, mas eu não deixei.

"Que calor horrível! Ainda bem que não sou uma vela!" . Não tem muito o que se comentar sobre uma fala dessas. Existem frases que realmente deixam qualquer um sem palavras. Essa é uma delas. Acho que a pessoa que a escreveu viu sucesso garantido. Pessoas engraçadas são sempre mais bem recebidas, e não há jeito mais fácil de ser engraçado que apresentar conclusões originais e fora do comum no meio de frases rotineiras, tudo salpicado com a maior naturalidade. "Que calor horrível!" todos dizem. "Ainda bem que não sou uma vela!" ninguém diz.

"Numa intensa tarde de verão, M. comentou consigo mesma:

- Nossa, está muito quente...estou derretendo.

Tomou um largo e demorado gole de chá gelado do copo suado e frio que por pouco não escorregou de suas mãos delicadas. Logo mais, como se a refrescante bebida que descera pela garganta tivesse, de alguma forma, clareado seu pensamento ao mesmo tempo que refrescado o corpo, refletiu:

- Se eu fosse uma vela, que é feita de cera e derrete com o calor, seria muito, muito pior"


Não gosto de baratas. Elas se movem de um jeito estranho, e irritam só por existirem. E quando resolvem ficar batendo na parede, então? Que coisa ridícula, arranjem o que fazer! Com tantos males no mundo, tanto lixo pra ser decomposto, você ficam aí, feito baratas tontas, andando em círculos e lambendo migalhas? Há um mundo de possibilidades lá fora, pensem grande!

O pior é agora, no verão, que a mães baratas estão tendo filhotes. Se você ver uma barata bem gorda, andando vagarosa ou em trajetória confusa, pode ter certeza que está grávida ou dando a luz. Agora há pouco houve um genocídio debaixo da minha mesa. Peguei um chinelo e táu, dei um certeiro numa marronzinha que estava passeando pelas minhas coisas. Quando fui ver, que coisa horrível...ela estava esperando 94 filhotinhos. Tentei salvá-los, mas eram muito prematuros, e eu não tinha nem uma caixa sequer de leite de barata em casa. Teria feito um minuto de silêncio se aquela maldita janelinha do MSN não estivesse piscando.

Fiquei profundamente abalada. Sinto a presença dos 94 espiritinhos a maior parte do tempo. Parece que estão no meu rosto, subindo pelas minhas pernas. Nesse escuro não dá pra ver o que é que faz cócegas, então eu dou uns tapas e cruzo as pernas na cadeira. Que nojo.


O que é a força do pensamento! Estava eu, quieta, na cama, assistindo a um filme quando senti minha perna coçar um pouco. Passei a mão, nada de mais. Coçou de novo, cocei de novo. Na terceira vez que fui coçar, senti uma coisa estranha. Dei um tapa e ouvi um tec, como se algo tivesse caído no chão. Fui olhar e o que foi que vi? UMA BARATA ! Estou quase certa de que foi o marido da barata que matei, e pai dos filhotes que impedi de chegarem a esse mundo. Ele quer vingança.Nunca mais vou usar a mão esquerda. Empurrar a barata pra fora da minha cama foi a última tarefa que esse membro infecto realizou. Não tenho mais mão esquerda.Esse filme que vi é muito, muito desconcertante. Acabou e eu me senti como se estivesse faltando o filme. Eles se conheceram no hospital, ela é diferente, ele é problemático, 4 personagens principais, cada um com seu drama. Ele passou a vida dormente. O amigo é um vagabundo eu só fuma maconha . O outro ficou rico e vive disso. O pai tem problemas com o filho e ficou viúvo. Ela não tem problemas. Ele foi embora e a deixou chorando na escada. Voltou quando ela chorava na cabine telefônica, disse que a amava e acabou. Quatro dias antes o filme começava com a morte da mãe e a exposição de uma vida sem graça e cheia de remédios de um cara de 26 anos. Quatro dias depois o filme acabava com a resolução dos problemas do moço, total tomada da liderança na vida e uma promessa de futuro promissor com a moça. Isso tudo sem clichês. É um bom filme, mas me fez chorar. Gosto dele. Me faz sentir conforto. Acho que esse é o verdadeiro ponto de gostar de alguém. Não vale a pena se desesperar, perder a linha e enlouquecer num amor impossível. Eu gosto dele e estou bem, plena, feliz. Fui coçar meu nariz e usei a mão esquerda. E agora? Tenho muito, muito sono. Já são quatro da manhã do meu aniversário Hoje é quarta-feira de cinzas, meu aniversário Não parece meu aniversário, eu ainda não dormi, não pode ser meu aniversário Vou dormir e acordar com um ano a mais.


- Vou dormir agora, mas não vai adiantar nada. É como se eu nunca dormisse de verdade. Um dia eu acordei, então nunca mais vou deixar de estar acordado.

Vejo que não há como parar,

Uma vez que se começa.



terça-feira, 6 de abril de 2010

6

Seis meses é muito tempo. É mais do que um ano.
Os anos são compridos, são muitos. Vão até sessenta, setenta, oitenta. Um ano é nada.
Agora seis meses... seis meses é muito. É metade de um ano, mas são vários meses.
18o dias é muito pouco. 24 semanas é nada. Agora seis meses, seis meses não é nada. Seis meses é tudo.
Onde eu estava seis meses atrás? Nem me lembro, nem quero me lembrar.
Onde vou estar daqui a seis meses? Nem sei, e nem quero saber.

Seis meses é muito tempo, muito, muito tempo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Os probles

Acredito que, se não todos, a maioria dos erros gramaticais têm fundamentação lógica. Não consigo pensar em exmeplos, mas me veio na cabeça o famoso "pobrema". Não é um erro qualquer, e sim o resultado de profundas reflexões acerca da sociedade capitalista. Junta-se ao radical pobr o sufixo -ema e tchanã, logo temos uma crítica da condição socioeconômica no Brasil. Problema é coisa de pobre, e pobre fala "pobrema".

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Caça-epitáfios

Quando acontece alguma coisa ruim, ficam todos cheios de poesia.
Não digo poesia de poeta mesmo, de artista. Digo poesia de gente que se mete a poeta e escreve os cúmulos da breguice e do uso das vírgulas, repete exclamações e fala de girassóis, arco-íris, amorzinho e pássaros. Parece que me arranca um pedacinho toda vez que me aparece um pseudo-poeta na frente. ( Que fique claro que eu não me considero poeta, já estou longe de admitir que não sou nada modesta).
Quando alguém morre, por exemplo, vira tudo poesia. Homenagem daqui, exclamações dalí, fotomontagens acolá e o coitado do morto, se visse tudo isso, era capaz de ter um ataque de tanto rir. Todos se tornam pessoas boas depois da morte, é fato. Você pode ser um completo idiota e não ter amigos, mas quando morrer vai ser o cara mais popular e incrível deste mundo- ou, quem sabe , do outro.
Mortes inesperadas garantem mais pontos, principalmente aquelas que envolvem homicídio, acidentes, doenças terminais e a mídia. A Isabela morreu e , de repente, todo mundo era primo do afilhado do avô da tia do pai dela e já tinha visto a pobre menina numa festa de família, coitada, era tão lindinha e inteligente, parecia um anjo e era a graça da nossa família. Oras, duvido que antes de tudo acontecer muita gente não tenha se enchido dela, que inferno, criança não serve pra nada mesmo.

Todos ficam tão fragilizados pela perda de um ente querido que acabam deixando passar a formosura poética de todas as belas frases de amiração póstuma.
"Fulano era tão bom... sabia mesmo viver a vida!" , "Tá certo... Deus o queria por perto pra espalhar toda aquela alegria ", " Ficarão na memória todos os momentos inesquecíveis que passamos com essa pessoa incomparável" . Ah, que bobagem. Quando o cara estava vivo ninguém dizia isso pra ele, e se bobear o coitado nem sabia que tinha tantos "amigos" .

O porquê de tudo isso é o famoso magnetismo do ego. Queremos sempre alimentá-lo com uma ilusória sensação de superioridade, e a repercussão de uma morte trágica sempre dá um certo status ao mortinho em questão. Daí, ao se apresentar como de alguma forma relacionado com o morto, pode-se arrancar um pedacinho dessa carcaça e ficar satisfeito por tempo suficiente até que mais um passe desta para melhor, sempre rezando para não ser o próximo- será que o ego funciona em outras dimensões espirituais?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dá vontade de rir


Drogas psicoativas me transformariam num Dalí paraguaio.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Golpe da carteira

Um dia desses fui mexer no meu armário ( estava procurando um livro de filosofia pra ler sobre Rorschach e suas manchas) e encontrei uma carteira velha. Uma não, várias. Tenho certeza de que, se me embrenhasse naquele mar , acabaria amiga de um fauno em Nárnia também.
Todas estavam em condições no mínimo deploráveis; encardidas, rotas, zíperes quebrados e uns desenhos horríveis. Carteiras velhas não têm utilidade e, mesmo se algumas não estivessem tão mal assim , não haveria porquê em usá-las. "Ah, minha bolsa é verde então vou pegar tudo o que tem na minha carteira e passar para aquela outra que é verde também". Não dá.
Depois pensei em outra possível utilidade: guardar dinheiro em outros locais. No armário do colégio, no porta-luvas do carro, na casa de amigos; parecia uma boa até eu me dar conta de que, além de não ter dinheiro pra colocar em cada uma dessas carteiras-reserva, eu poderia simplificar a situação carregando uma só carteira na bolsa.
Aí me veio uma ideia altruísta, que por ser algo assim tão generoso permaneceu em minha mente por um bom tempo. Já estava quase aceitando como verdade minha hipótese quando tive um estalo: alguém que precisa de uma doação de carteira velha não tem dinheiro para nela guardar! Se levar minhas sacolas de doações à igreja, tudo será provavelmente distribuido a quem necessita, mas o que um mendigo pode fazer com uma carteira velha além de colocar na foqueirinha dentro do latão? É inútil.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Tesouros secretos

O radical secret sugere algo secreto, o sufixo aria, cargo, dignidade, patente. Logo, secretaria deveria ser o local encarregado de esconder todas as coisas secretas.
No entanto, pessoas que tem coisas secretas são espertas o suficiente pra não guardá-las em qualquer lugar , e convenhamos que não é difícil seguir a linha de raciocínio e desconfiar da secretaria.
Tesouraria também é explícito demais . Além disso, se todos os tesouros fossem guardados em tesourarias os filmes de piratas não teriam como cenário mais comum ilhas desertas ( a não ser que fossem ilhas-tesouraria) . Conclui-se que os tesouros nunca se encontram na tesouraria nem as coisas secretas na secretaria.
Mas onde se encontram as coisas secretas e os tesouros? Jamais hei de revelar.

Lipograma

Adoraria fazer da minha vida um lipograma .
Tenho listas e listas de palavras que gostaria de excluir, dentre elas "insegurança" , " sardas", "distância" e, é claro, " berinjela" . No entanto, em sentenças como " não tenho sardas" , " é uma pequena distância" e " a palavra berinjela é muito legal de se falar" as palavras que me atormentam poderiam até agradar.
Por isso adoro aquelas que só existem em determinada língua e são tão específicas como... como alguma coisa bem específica.
Um exemplo é " razbliuto" . Essa palavra , que aqui significa " aquela afeição esquisita que se sente por alguém que não se ama mais" , deveria existir apenas para os russos ou para confundir os outros ( teor de xenofobia = 0%, a palavra é realmente russa).
Desejando "razbliuto" a alguém você de certa forma estaria experimentando a delícia que é o schadenfreude . Sem esse belo sentimento não haveria o bloco mais animado do Faustão: as videocassetadas , e muitos palhaços iriam à falência. Deu pra sacar que é aquele prazerzinho vindo da desgraça alheia ? É bom também gritar isso na rua. SSSSSSSSCHADENFREEEEEEUDE!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A morte da bezerra

-Ei, você aí no fundo... o que houve, está pensando na morte da bezerra?
Seria muito petulante dizer que sim, até porque ninguém sabia o que estava acontecendo.

Levantei a cabeça e dei uma risadinha frouxa para que ele se virasse logo e me deixasse sozinho com meus botões.

Ah, desgraça! Por que é que nada dá certo? Sempre que se coloca todas as esperanças em alguma coisa, é certo que essa coisa vai ter febre aftosa e morrer . É fato, e não há lugar pra otimismo na casa de quem vê as coisas como elas são, e se você tentar acomodar uma visão mais esperançosa da vida, é fato que um dia ,depois de acordar, você vai encontrá-la dura e gelada rodeada por algumas moscas no jardim. Foi assim que eu tinha encontrado a Gerta naquela manhã . Levantei da cama, calçei as pantufas , peguei uma xícara de café ( para ela, ouviram bem ? O médico proibiu a cafeína porque me abala os nervos) e saí correndo relativamente devagar pra não escorregar na grama . Estranhei que ela não estava na frente da casinha como normalmente, mas logo pensei " Ela ainda não tomou seu café, deve estar meio sonolenta". E foi aí que tive a pior visão da minha vida, uma visão que até hoje me assusta só de pensar. Uh, assustei. Assustei outra vez. Uh!

Vocês devem estar se perguntando de onde veio a feliz ideia de criar um bezerro. Bom, pergunte à grama, que resolveu nascer amarela. Não tenho dinheiro para adubo e não gosto de mexer em plantas ou de ver estranhos mexendo nas minhas plantas. Logo, por que não ter um bezerro ?
No dia seguinte à genial revelação, fui a uma feira de agropecuária, e por pouco não comprei um casal de porquinhos da Índia e uma muda de sansão-do-campo. Estava analisando uma galinha japonesa, toda peludinha, branca e fofa quando meu olhar foi subitamente atraído para uma cerca ao lado. Nos olhamos, a princípio, com olhos tímidos. Ela, graciosa, colocava seus lindos olhos cor de alcaparra em mim e , segundos depois, olhava para o chão. Eu logo percebi seu sinal; ela me desejava.
Respirei fundo e fui em sua direção como um leão vai em busca de sua presa. Espera, são as leoas que caçam, não são ? É , acho que sim, apareceu uma vez no Animal Planet que... Ah, esquece.
De qualquer forma, me aproximei dela já sabendo direitinho o que falar. Galanteador e confiante, disse em voz alta :
- Quanto é que custa essa bezerra, moço ?
O capiau disse que era o prêmio de uma rifa, e cada bilhete custava dez reais. Perguntei quantos bilhetes ele já havia vendido e ele disse que eram 2, contando com o que eu planejava comprar. Dez reais por meio projeto de vaca estava ótimo. Desembolsei a quantia e pedi logo sete bilhetes.

Aproveitei o tempo que faltava para o sorteio e fui explorar a feira. Tomei caldo de cana, comi pipoca e pisei em bastante esterco pra parecer que era da terra mesmo e entendia do negócio. Até forcei o sotaque e colocava uma "porrta" no meio da fala sempre que podia.

Chegou a hora do sorteio e eu vibrei. Peguei o bilhetinho na mão, os números eram 2,3,4,5,6,7 , meus novos números da sorte. O homem puxou um papel do saquinho e disse no microfone :
- Número 1 !
Me deu um misto de indignação com raiva... não era possível, eu tinha que ganhar aquilo! Sete rifas e nada de prêmio? Não era possível...
Sou muito grato à minha finada mãezinha, que me colocou no colégio desde cedo e pagou aulinhas de caratê até eu fazer 35 anos. Certamente isso me favoreceu a intuição e o olhar periférico, e me salvei ao olhar para o lado: um capiau sujo e sem dentes olhava seu bilhete, atônito, enquanto balbuciava bem baixo " é é é é é meu.. é meu" . O bom Deus que me perdoe, mas eu tinha que intervir.
-Não, meu camarada, ele disse número 1... isso aqui é um 7, veja - virei o bilhete de cabeça para baixo.
O pobre campesino murchou... " Hê, foi por pouco hein ? Quem sabe da próxima vez...". Eu concordei, e sutilmente peguei o bilhete do pobre iletrado, ou melhor, mal-letrado, e fui recolher minha tão cobiçada prenda.

A viagem para casa foi quieta, mas nossa primeira semana juntos foi algo mágico e ensolarado. Tomamos sorvete, brincamos de pega-pega, rolamos na areia da praia, contamos segredos. Eu e Gerta ( Gertita para os íntimos) éramos feitos um para o outro.

Me abala muito lembrar de tudo isso... são tantas emoções, como já diria o Rei ( aliás, Gerta mugia sempre que ouvia a voz de Roberto Carlos... acho que o tom fanho lembrava sua mãe).
E assim, numa tarde de primavera, Gertita se foi. Uma bezerra que amava igualmente os homens e os bichos, usava Ray-bans vermelhos e gostava de mingau. Minha grama nunca mais será tão verde e meu coração nunca mais baterá tão forte quanto batia quando ela estava comigo.
Quando penso que ela está me vendo lá de cima, lá dos grandes campos verdes do Paraíso, me dá uma raiva imensa . Por que é que ela teve que partir? E por que raios o Ministério da Saúde proíbe a venda de carne de animais com febre aftosa ? Oras, o que eu deveria fazer com 100 kg de carne de vaca que não pode ser comida? Congelar? Só podem estar brincando.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

E agora?

NÃO, não com N maiúsculo. Não quero nem pensar.Mas que raios é essa "reforma ortográfica" ? Ultraje, isso sim. Não me conformo. Tudo bem escrever supererói, cinquenta, ideia. Parece errado, é errado e eu protesto, mas tudo bem. Se ninguém reclama de um presidente manipulador, de roubarem nossa Amazônia ou do leite de soja ser mais caro que o leite normal, duvi-dê-o-dó que alguém vá reclamar dessa reforma. A maioria já escrevia desse jeito mesmo, não vão nem sentir.

Agora, o fim da picada é a geléia, digo, a geleia. Não tem mais graça, geleia é muito sem graça. "Geléia" é engraçado, saboroso, molenga, divertido, vermelho; "geleia" é sóbrio, esverdeado, derretido e muito, mas muito cafona. "Geléia" é enfático, "geleia" é um enfarto. "Geleia" é pior que a piada da frase aterior.Odeio geleia.
Penso muito nos produtores de geléia. Além de terem que mudar toda a embalagem por causa de um acento, ninguém mais vai querer comer geleia. Já imagino fábricas falindo, morangos em greve e torradas murchas. O café da tarde jamais será o mesmo, café, leite, torrada, manteiga e ... geleia?

Me preocupo também com as crianças; não consigo imaginar uma infância saudável sem geléia por todos os lados. "Filho, coma já a sua geleia!" "Nãaaao, mãe! Acelga, por favor, geleia não!"

E não pense que para por aí ( nota: pára também é obsoleto) : será o fim de fábricas de sabão em pó e alvejante.

Nota ao leitor: O texto acima foi postumamente publicado, já que a autora faleceu devido a uma giboia infiltrada na assembleia europeia da qual participou em 12/02/09, dia em que começou a escrever a obra literária que o caro leitor acaba de ler. Tamanha era sua paranoia a respeito desses répteis esguios que a autora sofreu um edema pulmonar e sucumbiu às 17:30 no Hospital Geral Asteroide da Coreia , sem poder assistir o final de Malhação, sua novela milenar preferida. A obra "E agora?" estava destinada a ser um grande clássico da literatura tupiniquim, mas a fortuna acabou por traçar-lhe outra rota .

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Era mais que uma anconda

-Tem uma cobra ali no balde.
Juro que estava andando pela grama- ah, aqui não tem calçada- e como já estava meio escuro, não vi direito até quase pisar em cima dela. Vi uma coisa da cor do chão bem brilhante, era uma cobrona, você precisava ver, parecia um cano de PVC de tão grande. Tinha assim, cerca de um palmo de largura, e olha que o grau dos meus óculos está antigo, hein! Nunca vi um bicho daqueles, enorme, sanguinário. Bom, na verdade ela estava paradinha no meio do meu caminho, parecia que estava só me esperando. Bom, ela escolheu o cara errado, achou que eu não era páreo para ela, com suas presas gotejantes e olhos vermelhos como brasas na fogueira, mas se deu mal. Sinceramente, eu nunca soube que poderia lidar com cobras, o máximo que já tinha chego de uma foi no Animal Planet, e nem pensava em fazer aquilo em casa, mas quando vi aquela cobra gigante...te juro, parecia uma mangueira de bombeiro, era cabreiro. Nunca vi uma cobra desse jeito, acho que nem deve ter sido descoberta pela ciência ainda. Sério, cara, parecia um basilisco, não sei como aquele bichão cabia nas matinhas que tem aqui no condomínio. Não, e o pior é que eu fiquei pensando : o que é que esse bicho come? Me diz, que presa em potencial tem aqui nessas matinhas? Nada! Pra sustentar uma cobraça daquelas só um bode, um bezerro, sei lá, e aqui nem tem bode e bezerro! Adivinha o que ela come? Cachorro, né! E eu segurando dois , na frente dela, dando sopa! Se eu não tivesse pensado muito rápido, não sei o que teria acontecido. Imagina só se fosse você lá, bem você que é assim magrinha... não dava nem tempo de falar "olha a cobra", era tchau e benção. Por isso que eu acho que você não devia andar por aí de noite , é perigoso, você não ia conseguir se defender... Juro pra você, se eu não tivesse pego os cachorros no colo e pulado em cima da cabeça dela, ela tinha engolido os dois numa bocada só, e ainda sobrava espaço pra um gato gordo. Eu pulei com tudo, segurei a cabeça dela assim, ó, e fiquei montado nela até ela cansar. E o bichinho era brabo, viu? Hahahahaha, o bichinho lutava feito um não-sei-o-que , parecia touro mecânico. Aí eu falei, ah, danada, agora você não escapa. Bichinha cansou e eu catei e dei um soco no meio da fuça dela, não coloquei muita foça pra não machucar, mas ela desmaiou, ficou até com a linguinha pra fora, coitada. Daí eu enrolei ela e botei debaixo do braço, fui levando . Devia ter uns cem quilos, no mínimo. Quando cheguei aqui ela tava quase acoradando, levantou a cabeça e veio tentar me morder, foi direto na cabeça, mas eu fui mais rápido e dei um mortal pra trás e caí com a cabeça dela no chão, aí ela dormiu de vez, coitada, descansou. Peguei um balde daqueles de lavar roupa que a Neide usa, sabe? Então, peguei o balde e botei a bicha lá dentro, enrolada assim, bonitinha. Cobri com a tampa daquele tacho de cobre que tem lá na despensa e pus a cadeira em cima , só pra assegurar que ela não escapava mais, né? Ai, que bichinha nervosa! Era verde , assim, meio marrom, com uns desenhos em preto e amarelo. Nunca vi desse tipo, e olha que eu conheço cobra, hein... Hahaha, que beleza... Vai lá dar uma olhada se quiser, mas cuidado que ela é brava, viu?

-Não tem nada aí no balde, olha, está vazio.
-Ih, deve ter fugido... que pena, podia levar pro Butantã...
-Mas não tava morta?
-Hã?...Ah, espera aí que o telefone tá tocando.

domingo, 10 de maio de 2009

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

Venho por meio deste solicitar que me dê um presente diferente este ano. Não peço que me regale seu patrimônio material; peço algo muito mais transcendente. Quero aprender a escrever. Logo que cheguei a esta conclusão, busquei papel e caneta para enviar-lhe de última hora esta carta escrita por mim na calada da noite. Não pude conter minha exaltação dentro desse peito iletrado, tamanha é minha vontade de aprender a escrever. Quando souber escrever vou ser muito feliz. Um beijo, Papi.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Se eu fosse um tomate

Se eu fosse um tomate - condição absurda, tal como a de um pária da sociedade- protestaria.
Além de ser uma fruta e ter de fazer parte da salada, um tomate se estraga facilmente e por isso é exposto a muitos agrotóxicos. Não pode ser muito duro nem muito mole, muito grande ou muito pequeno- a propósito, tomates cereja deviam ser banidos da espécie. E as sementes então? Se eu fosse um tomate faria cirurgias de extração de sementes, que coisa mais nojenta! Uma gosma viscosa e esverdeada repleta de carocinhos arredondados e vermelhos ? Não, obrigado. Sementes são úteis estritamente para a reprodução, portanto seria um tomate celibatário. Ora, que diferença faria a um tomate deixar descendentes nesse mundo? Tomates são todos iguais, uns menores, outros mais saborosos mas todos iguais. Fora isso, tomates não fazem amor. Tomates podem até engraçar-se enquanto estão no pé, nos supermercados, na geladeira, mas essa paixão nunca será correspondida : uns virarão ketchup, outros molho de tomate, tomate seco, salada... Ninguém vai ao supermercado e diz antes de colocá-los no saco " Hm, você está bem rijo... escolha dois amigos!". É por isso que tomates não se apegam. Como diria uma amiga, " pego mas não me apego". É esse o lema dos tomates.
Se eu fosse um tomate seria o mais vermelho de todos. Não por timidez ou falta de protetor solar, tomates são confiantes e ouvem os conselhos de suas mães. Eu seria tão vermelho que , ao invés de parecer saboroso, pareceria letal, assim como os sapinhos da Amazônia. Ao ver-me no mercado, donas de casa me colocariam no saco e me levariam para casa, anseando uma salada nutritiva, me colocariam numa bacia d´água e iriam lavar o alface. Sorrateiramente, eu esticaria minhas longas pernas - sim , tomates têm pernas, você é que não reparou- e sairia da bacia e fugiria sem deixar vestígios. Cada tomate tem seus anseios, objetivos e faz suas próprias escolhas, mas se eu fosse um tomate teria um objetivo maior: hackear a microsoft e hipnotizar o Bill Gates. Não me pergunte como eu o faria, se você fosse um tomate, saberia o que quero dizer.