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sábado, 9 de novembro de 2013

The Método

I now realise everything my brain wants to tell me and somehow  I won’t be very pleased to hear comes in English. Right now, for example, it comes to my mind that I’ll never be a good writer unless I get out of my own head and start looking at the world. And it does make a lot of sense, and even gives me a little shred of hope. When translated to my native language, however, it does get a lot less appealing and a lot more pretentious. Talvez porque eu não queira reconhecer que, se até hoje tudo o que escrevi foi sobre mim mesma, esse recém-descoberto conceito de boa escrita anula todo e qualquer talento que algum dia acreditei ter- ou qualquer outro modo mais adequado de se chamar a habilidade de escrever coisas que as pessoas gostam de ler (ou, pelo menos, dizem gostar).
Todas as narrativas em terceira pessoa, os relatos em primeira, as cartas fictícias, os poemas, os narradores onicientes, tudo foi escrito por mim, para mim e sobre mim. E a parte mais irônica (talvez também a mais triste) é que, mesmo o microcosmos de minha pseudo-literatura sendo desde o recrudescido início inteiramente focado e apontado para mim mesma, nem eu acabava gostando do que escrevia. Detesto e acredito que continuarei detestando tudo o que escrevi até o dia de hoje, mesmo se , contrário às estatísticas, alguma parte dessa ínfima produção seja de fato palatável.  Neste infindável sentir-grafar-detestar , acabei por criar um ciclo que trata de traumatizar e estigmatizar completamente o que ainda existe de esperança literária dentro de mim: surge a ideia e escrevo; mas a mim  esta surge mais como um anzol onde se pode espetar a isca para em dado momento fisgar um peixe do que como um grande espada enfurecido sob as águas do alto mar e que faz girar incessantemente meu molinete. É num processo diário de andar até a farmácia, pegar o metrô, assistir a uma palestra ou comer peixe empanado que encontra-se esses pequenos anzóis escondidos. De alguma forma eles devem ser guardados, pois nem sempre se está cem por cento equipado para a pescaria em alto mar. Os anzóis das histórias são reais, e as iscas que se colocam neles são geralmente escolhidas a partir do peixe que se quer pescar, às vezes são até feitas de penas de pássaro, plástico fluorescente e pequenos guizos (ou seja, completamente artificiais). Da mesma forma, o desenvolvimento de uma história geralmente é inventado no sofá da sala, com um copo de suco de soja e um bloco de papel. Um pescador indeciso colocará as piores e mais esquisitas iscas em seus anzóis se não souber exatamente o que quer pescar- do mesmo jeito que eu não sei exatamente o que quero pescar, tampouco o que quero escrever, de modo que acabo por preencher os espaços em branco de minhas histórias com o pouco que sei da vida (que concerne geralmente ao limitado universo de minhas experiências e emoções). Por isso minha escrita é um lixo. Sem contar pela linearidade falha, pela ineficiência dissertativa e pelas metáforas aborrecedoras.
De qualquer modo,formulei recentemente- em Inglês, é dispensável dizer- um método aparentemente eficiente para resolver meus problemas literário-existenciais. Devo escrever sobre o que me acontece e o que sinto sobre o mundo tão logo essas impressões apareçam, numa base diária e com os rigores que aplicaria a qualquer texto a ser publicado. Paralelamente, devo seguir colecionando episódios, impressões e personagens colhidos no cotidiano , mas a princípio sem a intenção de encaixá-los em algum contexto narrativo. Até então, estarei exercitando a escrita, formulando pensamentos e narrativas, analisando o mundo criticamente e observando suas peculiaridades sob minha própria ótica, ao passo que a observação e elaboração de personas e consciências distintas de minha própria deslocariam um pouco a órbita dos pensamentos para um eixo distinto de meu próprio e raso umbigo- de modo a não interromper o fluxo de pensamentos e tirar a pressão de !olhar para o mundo e parar com a escrita medíocre”.
Finalmente, a médio-longo prazo,  juntando-se as partes e atando-se os nós, teria eu pensamentos formulados, personagens com backgrounds inusitados para pensá-los e situações peculiares e propícias para tais pensamentos e personagens acontecerem. Em outras palavras, eu teria em mãos uma história boa, suculenta com detalhes e nutritiva com críticas e observações sutis sobre a sociedade ocidental pós moderna.

Esse método supracitado, admito tê-lo formulado durante uma das inúmeras entrevistas que concedo ao espelho do banheiro quando passo perto dele. As circunstâncias em que foi criado, entretanto, não devem macular sua eficiência. Devo admitir que acho bonito como uma ideia tão estratégica e talvez até parecida com um plano de guerra de um grande general de bigode farto e preto do leste europeu pode nascer de uma coisa idiota e medíocre como uma auto-entrevista em frente ao espelho. E assim, num processo fluido e muito natural, minhas reflexões em frente ao espelho e um general de bigode muito preto são todas as provas de que preciso para a autenticidade do inusitado e brilhante método que criei. 

domingo, 5 de maio de 2013

Padoca

Entramos na padaria e eu logo peguei uma Malzibier. Ando mimando minha gastrite com esse tipo de coisa: chá branco, menos carboidratos, menos álcool. Sobre beber na padaria, bom, ando mimando a misantropia também: nada de bares.

Ao sentar no primeiro banquinho, ao lado das duas companheiras, o atendente se ofereceu pra abrir minha cerveja. Quando terminou o gesto de estender a mão molhada por cima da estufa de salgados, a tampinha de alumínio já estava caída sobre o balcão, levemente amassada com a marca de um dente.

-Moça, isso aí é perigoso... 
Ele realmente tinha uma ótima intenção- alertar uma jovem moça para que não perca um dente abrindo uma long neck. Mas se eu realmente quisesse ouvir bons conselhos, teria ficado em casa. Se quisesse que alguém estranho falasse comigo, teria ido a um bar. Mas eu não queria ouvir coisa alguma.

- ... a gente esquece, mas o dente é a coisa mais preciosa que a gente tem. 
- Pois é, eu sei. Todos esses meus dentes de cima são dentadura- terminei, sem sorrir, antes de me dar conta de como era bonito aquilo que me dizia.

O dente é a coisa mais preciosa que a gente tem. Dente. Preciosa. 

O atendente se afastou do balcão, ignoro se ofendido, resignado ou pressupondo minha embriaguez. Eu fiquei com as risadas dos amigos e um amargo na boca, que certamente não vinha da cerveja.
O que pude registrar da poesia acidental ficou no caderninho, tudo reproduzido abaixo.


E ao atendente, minhas desculpas sinceras e talvez exageradas. É que eu consigo ser um pé no saco quando me empenho pra isso.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mengano



"Enquanto você estava no banco de trás, fumando o cigarro que achava que seria seu último, eu estava me apaixonando, me apaixonando profundamente por você, e eu nunca te disse isso até exatamente agora."

domingo, 30 de setembro de 2012

Em Flama


-Eu quero ser alguém mas você me consome.
Antes você era o fósforo que eu acendia no comecinho da noite, naquela hora em que começa a ficar escuro e a gente ainda não quer acender a luz. Com você eu nunca quero acender a luz.
Hoje eu mergulho em gasolina e peço pra você me queimar. Transfiguro-me  em capim seco pra você se alastrar em mim e não deixar uma só folha. Eu te quero acabando comigo porque eu mesma não tenho coragem de fazer isso. Já me matei muitas vezes, mas prefiro o seu jeito. O seu jeito que me deixa sempre queimando, mesmo quando você não está. Quando você se apaga, sem eu ver deixa uma centelha queimando a semana inteira. Eu só percebo na quinta ou na sexta, quando vejo meus dedos escuros como carvão e meus olhos vermelhos.
Por isso eu quero que você me queime: porque eu não consigo mais me incendiar sozinha.


Impressionava-se com seus acessos de lucidez (e nem sempre de uma boa maneira).
Mas ele sabia quem nem a ela lhe agradava ouvir o eco do que dizia nessas horas, então nem se importava.
- Você fala como se a gente tivesse uma química incrível.
- E não tem?
-Heim? Mas a gente nunca...
- Eu não estou falando de sexo.
-Você sempre está falando de sexo.
-Agora não estou.
Continuou o cigarro pelo qual tanto batalhara para gostar. Não gostava. Era só aquele gosto amargo na boca e o segurá-lo entre dois dedos que a faziam sentir-se gauche. E quando o resto todo da vida estava muito droite, ela fumava pra ser gauche. Pra dizer que alguma parte em si ainda acreditava ter alguma coisa pra tirar de dentro- mesmo que fosse só fumaça.

-A gente se entende.
-Não acho.
-Mudou de ideia? Não quer mais que eu te queime?
-Idiota.
-É sério, por que você acha que a gente não se entende?

Precisava da gauche. Fez uma pausa pra construir uma muralha de fumaça que mais ficou parecendo uma cerquinha de  arame farpado.

-Porque se a gente se entendesse... parou.  Se a gente se entendesse, a gente nunca estaria junto. Mas a gente fica junto o tempo todo porque sempre quer convencer o outro de que está errado.

Ele ouvia a voz dela por cima das cigarras em vibratto.

-É que nem carrapicho, sabe? Ele só gruda na calça porque tem atrito.
-É, bem que você é chata que nem um carrapicho.
-Vai se... foi interrompida.
-Eu entendi, carrapichenta. Eu entendi, mesmo a gente não se entendendo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Boi ao sugo


Teve um dia em que, não sei por qual razão, meu pai me ensinou a estratégia das piranhas. Estávamos almoçando em um restaurante, italiano, talvez.  Era nhoque. Lembro de observar atentamente as bolinhas de batata em seu prato durante o discurso. Eram bois. Bois malhados, cobertos em molho de tomate, e precisavam cruzar um rio vermelho.



 Mas aquelas águas eram infestadas de piranhas e, para que o rebanho passasse, era preciso que um deles fosse sacrificado. Escolhiam,então, o boi mais fraco, mais velho ou mais doente e colocavam-no na água primeiro. Enquanto as piranhas o devoravam, o bando passava ileso.
E as bolinhas de nhoque cruzavam o prato de meu pai. Todas, menos aquela, a mais amassada, meio deformada. Aquela ficava com as piranhas.

domingo, 29 de julho de 2012

Mariposas antitéticas


O homem nasce só e morre só. Sabendo disso, a humanidade criou os mais diversos subterfúgios para amenizar essa solidão. São como pequenas peças em que se encena  a família, o casamento, as alianças, clubes, sindicatos, feriados. Todos nós somos os atores. E a prova maior de que essa vida inventada é um espetáculo inconclusivo é a morte. É uma última apresentação de temporada  sem o ator principal. Velórios são óperas sem uma prima Donna.
Se é, então, a vida  um espetáculo  inventado para plateia nenhuma, qual seria a razão de fingir? 


Eram ambos daqueles jovens cujas consciências agregam-lhes uns anos.  O sofrimento dele era não saber o que havia fora dali e evitar pensar no assunto. O dela, porém, era saber. Ela sabia— no mínimo sentia que o sabia— como o mundo seria e tinha medo, muito medo.

Haviam passado aquela sexta-feira na cama. Ela, assistindo qualquer coisa que a fizesse esquecer que existia. Ele, jogando videogame.
Por motivos diferentes, eram sós. Tinham família, amigos, amantes. Mas eram terrivelmente sós ao mesmo tempo em que não lhes fazia sentido fazer qualquer coisa sozinhos.  Enquanto ele, ao andar só por algum espaço aberto, atendia cegamente às borboletas que se debatiam em seu abdome e faziam-lhe voltar para casa, ela tinha vontade de ir ao banheiro. E também de chorar, mas isso não lhe acontecia havia muito tempo.
 Ao ser chamada, jocosamente, de “coração de pedra” por amigos , parte de si acreditava realmente não saber ter emoções. Outra parte,porém, aquela que geralmente está certa mas à qual nunca damos ouvidos, sabia que em seu coração havia um dique, uma barreira forte, densa e impenetrável . Mas isso era só pra conter a torrente de emoções que era capaz de ter. Sempre tivera medo de inundar-se.
Ele olhava no espelho e via um moleque. Desejava, como todo rapaz da mesma idade, uma namorada bonita, um carro zero e morar sozinho. Mas não queria realmente ser isso: era realista e sabia que a imagem refletida ia ganhar mais pelos, olheiras mais fundas e pele mais seca,  mas seria sempre aquele moleque. Não queria estruturar uma vida de homem. Não queria falar sobre a vida lá fora. Queria só que o deixassem em paz.
Não viviam, senão portavam uma solidão ambígua e traiçoeira. Como uma inflamação na gengiva , era dolorosa e boa ao mesmo tempo. Sentiam, cada um a sua maneira, uma enorme falta. Nas poucas vezes que tentaram consertá-la — tinta no cabelo, aulas de guitarra, beijos com desconhecidos, chocolates belgas— fracassaram. Seus organismos pareciam aceitar interação até um certo ponto. Ele não queria ter de falar com alguém, chamaria quando precisasse. Ela não queria ser de ninguém, mas se emprestaria quando quisesse.

Então, naquele dia, saíram sós. Os acontecimentos que levaram a isso não importam.  Ele, na verdade, não se importava em estar só contanto que ninguém pudesse vê-lo. Luzes, espelhos, vidros e chão escorregadio— shopping centers eram exatamente o que via quando pensava no inferno. Por isso comprara o ingresso pela internet.
A sessão era às 20h40. Pretendia chegar às 20h30. Os dez minutos para subir ao último andar, comprar a pipoca e se sentar alguns instantes depois de as luzes serem apagadas haviam sido previamente calculados. Assim, enquanto ela vagava e divagava na frente de vitrines e fingia procurar livros sobre decoração de bolos na livraria, ele tomava banho e jantava com a mãe.

Quando ela se viu saindo do taxi, a solidão se tornou surpreendentemente incômoda, como a etiqueta de uma camisa que, na loja, não se faz notar, mas , no dia seguinte, arranha a pele e a paciência de quem vestiu. De repente, a camisa que comprara— com estampa de independência e botões muito bem resolvidos— fazia arder a pele.  Por muito tempo desejou que alguém, quem quer que fosse, estivesse lá para segurar sua mão. Arrependeu-se amargamente de estar sob aquelas luzes e não na penumbra do quarto em que dormia. Ela e ele eram mariposas antitéticas:  sempre rodeando cantinhos escuros.
 Ele queria abraçar alguém além da almofada do sofá quando assistia tevê. Ela queria alguém que lhe desse vontade de cantar no chuveiro.  No entanto, sempre que tentavam alcançar isso, tudo parecia esvanecer. Esse ponto, em particular, ele entendia melhor do que ela. Quem nunca reparou que a água num desenho animado parece muito melhor do que a água do mundo real?

Somos desenhados para querer amor, mesmo sem saber como obtê-lo. E  a ilusão do livre arbítrio serve apenas para supervalorizar o a busca. O amor não é sentimento, é instinto.
Um vegetariano escolhe não comer carne, mas o homem precisa de carne. Para todos efeitos, eram vegetarianos de amor. E viviam bem à base de bifes de soja.


A fila da pipoca estava abnormalmente longa.
 Mensagem de texto para um amigo :“Se em uma fileira estivermos só eu e um casal, torça pra eu não encontrar uma caixa de Prozac no armário do banheiro”.
Fileira G:  vazio,vazio,vazio, vazio, vazio, casal, ela, vazio, vazio, vazio, vazio, vazio. As luzes lentamente se apagavam. Um pai, acompanhado de três meninos pequenos, entrou na fileira. Pipoca caindo do pote, barulho de sacola e ela em seu mantra “do meu lado não, do meu lado não, do meu lado não”. Do lado dela, não.  Pegaram a G1,G2,G3 eG 4.
No escuro, a agonia que os afligira no corredor parecia menor. Se não chegasse alguém, ela pretendia pular para a G8 ao seu lado. Assim, ficaria longe do casal e a uma distância segura das crianças. Mas chegou.
As poltronas, lado a lado, como uma lâmpada amarela na varanda em noites de verão, atraíram para si aquelas duas mariposas.
Existe no mundo um sentimento difícil de descrever, mas muito comum. Menos inteligível que a felicidade, mais trêmulo que a paz e mais primitivo que a euforia. É uma realização inconsciente.  Um prazer moderado e gratificante. Um afago interno.
Foi esse afago que sentiram nos segundos antes do filme começar.
Ela ria e ele ria em seguida. Ele se afligia por não poder fazer nada quando, depois de uma explosão ou uma cena de luta, ela se assustava ou cruzava os braços com força. Ela inclinava um pouco a cabeça, nos limites de sua poltrona, como se a apoiasse no ombro dele. Ele temia vê-la chorar a morte de um personagem. Ela, periodicamente, mexia-se, estralando as costas na esperança que ele a olhasse.  E ele queria fazer um comentário engraçado, baixinho, ao pé do ouvido, para forçá-la a ter que conter o riso. Ela e ele sabiam, também, que nada daquilo iria acontecer.
Rolavam os créditos e a sala esvaziava. E a fileira G ainda abrigava as mariposas. Às vezes, quando se apoia um copo de suco aparentemente vazio em uma mesa, por algum tempo, um restinho doce se acumula no fundo. Então apoiaram aquele copo vazio entre os corredores de saída lotados e a tela. Um spoof do próximo filme da saga. Amavam-se.
 Ela levantou e, lentamente, entrou na fila da esquerda. Ele amassou o saco de pipoca vazio e foi pela direita. Jamais veriam o rosto um do outro. Não precisavam ver o rosto um do outro para saber que sorriam.


À sua maneira, aquele amor duraria para sempre.














N.do A. : Agradecimentos especias a Dr. Peanut o editor improvisado, por não entender exatamente o que eu quis dizer, mas me falar.



terça-feira, 24 de julho de 2012

Horsamarino



Transcrição:
" Todos levantem seus remos para o Horsamarino,Horsamarino,Horsamarino. O Horsamarino não teme as estações e enfrenta as correntes. Ele é corajoso, valente e sincero. Ele vive na natureza em paz e luta para que ela viva nele em paz também. Mas o Horsamarino não pensa.
O Horsamarino não pensa porque ele é bruto e instintivo. Ele é, sobretudo, um animal. Ele é um peixe que não regula sua temperatura e todos os dias tem que nadar atrás da comida que quiser comer. Há quem diga que não há melhor forma de ser livre do que nascer um Horsamarino.  Ele é simples e sua vivência se limita a alguns segundos no passado e alguns a diante. Contanto que sobreviva, ele terá consciência. O Horsamarino não sabe o que é o Amor, porque ele não precisa do Amor. O amor, para ele, é encontrar seu alimento quando sente fome e escapar quando ameaçado- porque isso mesmo é amor: algo pelo qual anseia-se como um anseia por ar quando sufocado. O Horsamarino , se tirado da água, terá seu amor nela novamente. Mas seu lugar é dentro da água, então aquele amor logo desaparece quando o Horsamarino é devolvido a quem pertence.
Já o homem, o homem não. O homem não sabe a quem pertence, de modo que constantemente se sente sufocar pela vida que leva. Sempre que pode, sonha com o Amor que nunca terá- antes de estar debaixo da terra. Porque , se o amor é paz, então o Amor só está na morte. Talvez, de fato, seja ela a quem o homem pertença: à morte."






terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Prefiro não intitular.







Vou fazer isso de uma forma simples. O trabalho, a reflexão, o resultado, deixo-os para a sua mente. As coisas mais impactantes, na vida, são assim: simples. Uma ou duas frases. Uma escolha. Um olhar. E o impacto quem cria é você.


Foi assim: no supermercado, ele me olhou. Era um homem bonito. Cabelo claro, barba por fazer. E nos olhos, tristeza. Uma tristeza irrequieta, em revolta. Uma tristeza profunda que só eu poderia compreender. Foi tudo muito rápido. Ele olhou nos meus olhos e pensou que eu pudesse compreendê-lo. Ele olhou nos meus olhos e esqueceu a sua própria tristeza: ao olhar pra mim, ele só podia ver a minha. Eu também só pude ver a dele, e foi por isso que, quase sem pensar, virei o rosto e continuei andando.


Não sei muito bem o que poderia ter feito.


Poderia ter visto só a tristeza, ela me bastaria.


Mas eu tinha que ver a cadeira.


Tudo, tudo em segundos. Eu vi a cadeira em vez de seus olhos, então continuei andando. Mas ele não pôde.









quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ensaio Gutural


Janeiro, mês de dias quentes e noites abafadas, profundas,ambíguas. São noites de vida que compensam o frenesi dos primeiros dias de início de ano. Noites em que vale a pena se arriscar escuridão adentro.
Ao fundo, se ouve o som distante de cães latindo, risadas agudas perfuram o silêncio aqui e ali. Todos no mundo, sem exceção, estão fazendo alguma coisa, até mesmo que não faz nada. Todos embebidos no aroma pungente de uma noite de verão, esse almíscar discreto que suscita até no mais sensato o instinto primitivo de sair da toca e vagar por aí. Não existe, em todo o universo, coisa mais animal do que a noite. É a hora em que o homem esquece ser homem e faz tudo o que faria se ninguém pudesse vê-lo. Mas se engana aquele que pensa que as coisas, no escuro, não podem ser vistas. Os sentidos afloram ao passo que a racionalidade involui. O quese faz na noite, ante mesmo de ser visto, é sentido; sentido com a sinestesia noturna que só quem é bicho pode entender.
Será numa noite como essas que tudo acontecerá, ou melhor, que tudo deixará de acontecer. O notável dessa noite não será algo realizado, e sim uma quebra. Há uma clara –ou melhor, escura– distinção entre o aceitável e o inaceitável durante a noite. É uma linha que divide o mundo em dois: a luz, onde reina a moral, a razão, a família; e a falta dela. Sobre esta, não se pode declarar nada. Existe, entre todos que nela entram ou saem, uma jura de silêncio selada inconscientemente. Tudo que se pode dizer sobre o escuro é meramente gutural.
A noite referida, pois, configurará o fim do mundo como o conhecemos , ao mesmo tempo que delineará o início do nada. A noite deixará de ser a falta de luz para ser a presença da escuridão. E o escuro avançará por cima de tudo, e será o regente do mundo que antes a luz iluminava. Será o dia em que a vida e o destino fecharão os olhos para tudo o que acontecer por aqui. Na luz, tudo o que se faz, se paga; na noite, não é bem assim. Não há registros de qualquer coisa que foi sequer pensada no escuro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ao estalar dos dedos

E de repente invadiu-lhe a sensação de ser muito mais do que tudo aquilo. De estar em constante expansão, e de que não precisava da relatividade, do exercício nº 4 ou das rubricas de ninguém para poder se expandir. Simplesmente funcionava assim, e pronto.

Cultivou essa ideia por algum tempo. Desejava colocá-la dentro de seu marsúpio, e protegê-la como a mãe protege sua prole. Finalmente encontrara o elo entre a legião de pessoas que já fora e que chegaria a ser. Um Zelig desvendado. Entre todas as férias de julho, todas as tintas, todos os desromances, as meias sujas, as passagens de ônibus e as noites solitárias de sexta não havia mais que uma dimensão compressível e relativa. Tudo que lhe passara e poderia ainda passar parecia estar ao alcance das mãos.

Era como respirar após um longo e interminável mergulho. Sentia-se como uma metáfora velha e gasta, um chavão. E seus grilhões, conhecia-os muito bem. Evasão. Era disso que necessitava.

Os lábios repetiam "é isso!", e o som ecoava por cada milímetro cúbico, até chegar na cabeça. Essa, relutante, dizia "não".

"Não".

"Não".

Era "não", e voltou ao que era antes.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Dezesseis, dezessete

17.02.2010 , 3h16min

Se começar, certamente continuo. Por pouco não digo que não há como parar quando já se começou. Se bem que, agora que coloquei no papel essa idéia de alguns segundos atrás percebi que discordo do eu que se manifestou mais recentemente. É claro que nunca se para, uma vez que se começa.


E quando paro de pensar, depois que penso

E penso à beça

Vejo que não há como parar,

Uma vez que se começa.


De fato, uma vez que se começa, nunca se para. O que pode haver é um hiato, uma pausa , mas nunca um término definitivo. Mas, se for assim, não estou começando, estou retomando . É isso, retomando.

Mas, então, quando se retoma, o que acontece?

No começo, tudo é mais brando. "Vá com calma, ela só está começando" soa bem, e pode até convencer um homem de meia-idade cuja esposa ficou flácida depois que nasceu o segundo filho a assediar menos a stripper oxigenada que dança no poste à sua frente. Ou não. Strippers servem para serem assediadas.

E eu? Não gosto de me comparar a uma stripper. O mais perto que já cheguei foi uma vez que, no metrô, perdi o equilíbrio e escorreguei pelo mastro. O peão suado atrás de mim quis colocar uma nota do meu bolso, mas eu não deixei.

"Que calor horrível! Ainda bem que não sou uma vela!" . Não tem muito o que se comentar sobre uma fala dessas. Existem frases que realmente deixam qualquer um sem palavras. Essa é uma delas. Acho que a pessoa que a escreveu viu sucesso garantido. Pessoas engraçadas são sempre mais bem recebidas, e não há jeito mais fácil de ser engraçado que apresentar conclusões originais e fora do comum no meio de frases rotineiras, tudo salpicado com a maior naturalidade. "Que calor horrível!" todos dizem. "Ainda bem que não sou uma vela!" ninguém diz.

"Numa intensa tarde de verão, M. comentou consigo mesma:

- Nossa, está muito quente...estou derretendo.

Tomou um largo e demorado gole de chá gelado do copo suado e frio que por pouco não escorregou de suas mãos delicadas. Logo mais, como se a refrescante bebida que descera pela garganta tivesse, de alguma forma, clareado seu pensamento ao mesmo tempo que refrescado o corpo, refletiu:

- Se eu fosse uma vela, que é feita de cera e derrete com o calor, seria muito, muito pior"


Não gosto de baratas. Elas se movem de um jeito estranho, e irritam só por existirem. E quando resolvem ficar batendo na parede, então? Que coisa ridícula, arranjem o que fazer! Com tantos males no mundo, tanto lixo pra ser decomposto, você ficam aí, feito baratas tontas, andando em círculos e lambendo migalhas? Há um mundo de possibilidades lá fora, pensem grande!

O pior é agora, no verão, que a mães baratas estão tendo filhotes. Se você ver uma barata bem gorda, andando vagarosa ou em trajetória confusa, pode ter certeza que está grávida ou dando a luz. Agora há pouco houve um genocídio debaixo da minha mesa. Peguei um chinelo e táu, dei um certeiro numa marronzinha que estava passeando pelas minhas coisas. Quando fui ver, que coisa horrível...ela estava esperando 94 filhotinhos. Tentei salvá-los, mas eram muito prematuros, e eu não tinha nem uma caixa sequer de leite de barata em casa. Teria feito um minuto de silêncio se aquela maldita janelinha do MSN não estivesse piscando.

Fiquei profundamente abalada. Sinto a presença dos 94 espiritinhos a maior parte do tempo. Parece que estão no meu rosto, subindo pelas minhas pernas. Nesse escuro não dá pra ver o que é que faz cócegas, então eu dou uns tapas e cruzo as pernas na cadeira. Que nojo.


O que é a força do pensamento! Estava eu, quieta, na cama, assistindo a um filme quando senti minha perna coçar um pouco. Passei a mão, nada de mais. Coçou de novo, cocei de novo. Na terceira vez que fui coçar, senti uma coisa estranha. Dei um tapa e ouvi um tec, como se algo tivesse caído no chão. Fui olhar e o que foi que vi? UMA BARATA ! Estou quase certa de que foi o marido da barata que matei, e pai dos filhotes que impedi de chegarem a esse mundo. Ele quer vingança.Nunca mais vou usar a mão esquerda. Empurrar a barata pra fora da minha cama foi a última tarefa que esse membro infecto realizou. Não tenho mais mão esquerda.Esse filme que vi é muito, muito desconcertante. Acabou e eu me senti como se estivesse faltando o filme. Eles se conheceram no hospital, ela é diferente, ele é problemático, 4 personagens principais, cada um com seu drama. Ele passou a vida dormente. O amigo é um vagabundo eu só fuma maconha . O outro ficou rico e vive disso. O pai tem problemas com o filho e ficou viúvo. Ela não tem problemas. Ele foi embora e a deixou chorando na escada. Voltou quando ela chorava na cabine telefônica, disse que a amava e acabou. Quatro dias antes o filme começava com a morte da mãe e a exposição de uma vida sem graça e cheia de remédios de um cara de 26 anos. Quatro dias depois o filme acabava com a resolução dos problemas do moço, total tomada da liderança na vida e uma promessa de futuro promissor com a moça. Isso tudo sem clichês. É um bom filme, mas me fez chorar. Gosto dele. Me faz sentir conforto. Acho que esse é o verdadeiro ponto de gostar de alguém. Não vale a pena se desesperar, perder a linha e enlouquecer num amor impossível. Eu gosto dele e estou bem, plena, feliz. Fui coçar meu nariz e usei a mão esquerda. E agora? Tenho muito, muito sono. Já são quatro da manhã do meu aniversário Hoje é quarta-feira de cinzas, meu aniversário Não parece meu aniversário, eu ainda não dormi, não pode ser meu aniversário Vou dormir e acordar com um ano a mais.


- Vou dormir agora, mas não vai adiantar nada. É como se eu nunca dormisse de verdade. Um dia eu acordei, então nunca mais vou deixar de estar acordado.

Vejo que não há como parar,

Uma vez que se começa.



segunda-feira, 29 de março de 2010

Sabedorias: Garis

Aviso: As postagens sob o marcador de "Kelly-bam" podem apresentar conteúdo impróprio e/ou desagradável a alguns públicos, além de usar a variedade padrão informal da língua. As opiniões expostas não representam necessariamente a opinião da autora em si, apenas dos espíritos malignos que a possuem e compelem a escrever esse monte de baboseiras.

- As pessoas ignoram umas às outras , ainda mais quando têm posição social mais elevada do que o outro , tratam mal até... outro dia vi um gari ser atropelado e o motorista foi embora.
-Que vergonha!
-Horrível!
- Não têm respeito só porque é um trabalhador... Acho ridículo a pessoa ignorar assim, né, só porque é mais pobre que ela. Eu não ignoro, eu trato igual.
-É, a pessoa finge que nem viu, nem cumprimenta. Eu sempre cumprimeto.

Cumprimenta é o caralho. Mentira, mentira, porra . Fica aí com esse falso moralismo, é a bunda da tua mãe ! Não vem com essa pra cima de mim não, porra.

Ignorar você não ignora mesmo, porque nem vê. Tu tá tão absolvido com o teu aipode , com o teu aifone, o cardaço desamarrado do teu naique ou colocando o teu blusão da guépi na bolsa da quiplim, que tu não tem nem tempo de olhar pro neguim vestido de laranja do teu lado. Mas é ele que recolhe a bituca do cigarro que o gordo do teu pai tacou no chão, é ele que joga o papel do teu chiclete fora, é ele que cata a garrafinha d'água da gorda da sua mãe . E ele nem reclama.

Mas você fala com os teus amigos, tudo pleibói que nem você, e vocês tudo decide que tem que dar oi pro filh* ** **** do gari, e saí na rua só pra fazer isso, daí chega no nego e fala que nem retardado" Oi, tudo bom com você?". Ah, vai tomar no meio do teu cu. O gari não é debimental pra tu falar assim com ele, o gari é gente, porra. O gari tem sentimento. O gari sabe que você tá falando com ele assim porque você acha que é mais rico, acha que é melhor. Mas o gari também sabe que você é mesmo mais rico, mas não é melhor porra nenhuma.Porra nenhuma, porque que vale é o que tá aqui na cuca, ó. É o que tá aqui dentro, ó. É só isso. E o gari esvazia lixeira, mexe com coisa suja, podre, coisa que não presta mais. Mas ele sabe que ele presta. E a cada saco cheio de lixo que ele tira, é um cheio de bondade e sabedoria que ele põe pra dentro dele mesmo.

- Kelly Bam

segunda-feira, 22 de março de 2010

Segunda feira, 22 de Março de 2010


Confesso que muitas vezes imagino diálogos entre nós, dado que as circunstâncias nos privam de qualquer interação. Reconheço que não é uma prática saudável, mas quem é que se importa com saúde em dias como esses?



Você me pergunta se acho que vai ter uma volta.

Bom, não posso afirmar com consistência qualquer acontecimento futuro consequente de nossa relação no período presente, como já fiz no passado, com negações vivazes ou promessas pretensiosas acerca do que víamos pela frente. A verdade- como a tenho buscado!- é que, agora, proponho-me a afirmar o que digo com cada vez menos consistência. O futuro é incógnito, meu caro! Incógnito, e , por favor, deixemos o romantismo de lado de uma vez por todas. A esperança, o arrebatamento, a solubilidade das expectativas quando se está apaixonado são, de fato, aspectos lindos da vida. No entanto, são muito mais benévolos e bem aproveitados na vida de um sujeito enquanto meras observações acerca da situação de terceiros.
Vejamos o caso de um rapaz loucamente apaixonado que devota todo seu tempo à sua amada - se não me engano, você já usou este caso para exemplificar algo sobre o empenho do tempo, não me lembro muito bem. Seu trabalho, seus estudos e sua convivência social estão muito, senão totalmente, comprometidos pelo estado de espírito em que se encontra, e qualquer atividade será posta em segundo plano se não relacionada ao amor que sente, acarretando inúmeras consequências futuras, as quais nem me agrada imaginar. A euforia, meu caro, só conduz ao desastre.

Quer saber se estou escrevendo em novas páginas.
Honestamente? Não. Tudo o que faço neste momento de minha vida está sob a ação da resultante de duas forças: aquela que me puxa para nosso passado, cuja influência em meu presente neguei e menti, e aquela que me impulsiona à mudança e ao novo.


Questiona, com ironia, se superei o que aconteceu.

Digo, com toda consistência que me permito ter, que o superei. Nego, com toda consistência que me permito ter, que superei o que aconteceu. Há uma linha tênue entre você, como indivíduo, e você, como acontecimento. Para minha infelicidade, sobretudo às segundas feiras, essa divisão perde a nitidez e os dois se fundem, mesclando-se e infiltrando-se no solo fecundo de minhas ideias e germinando, ali, pensamentos os quais prefiro não registrar. Afirmar é aceitar, e definitivamente não quero internalizar os conceitos que, vez ou outra, figuram em minha mente.


Não me importo com você. Não escrevo a você, não me dirijo a você. Me importo comigo, escrevo a mim mesmo e me dirijo ao meu eu mais profundo. Afirmar é aceitar, e , agora que afirmo, me contradigo e percebo o quanto minha honestidade para comigo mesmo compromete a situação em que me encontro, pois acabo de dizer inúmeras coisas que tem contribuição ao meu bem estar inversamente proporcional à sua veracidade. Contudo, aceito que é assim que sou e que, como não me esforço um tanto que seja para isso, não vou mudar . Tenho quase certeza que você já me disse algo parecido certa vez, e até me lembro vagamente do que foi, mas aqui reafirmo(se é que posso) minha presumida indiferença privando essa carta de citações de nosso passado.



Post-scriptum: Não me dei o trabalho de reler o que foi escrtito a procura de falhas ou incoerências. A hora está já muito avançada e, para dizer o que eu gostaria (e muito) que fosse verdade, pouco me importa o que você abstrairá disso. Contanto que esta carta chegue a você, minhas expectativas serão atendidas e eu me satisfarei. Novamente, não pretendo aqui iniciar um diálogo. Declaro, sem pudores, que este é um monólogo e você, amigo, não passa de um coadjuvante em terceiro plano.

domingo, 2 de agosto de 2009

O bolso do casaco do Tio

O carro deu ré até chegar perto do portão que , suponho, costumava ser branco. Me senti um pouco sem jeito, o homem nos fitava como se fossemos algum ser de outro mundo, e a impressão que tive foi que ele é quem era.

Houve hesitação para que o portão fosse aberto. Os olhos fixos do homem, a boca torta da mulher , aquelas paredes manchadas pela terra vermelha e uma atmosfera quase estática compunham não só o quintal da frente da casinha; eram praticamente o ar da cidade toda.


Logo reconheceram-se, e quando fui cumprimentar o Tio não consegui escapar de seus olhos parados. Era como se eles dominassem os meus e os fizessem encolher-se , pouco a pouco, em um canto qualquer de meu rosto.

Entramos.

O sofá velho de algum material que imitava o couro grudava em minhas pernas enquanto nos contaram todas as novas e velhas da cidade. Algo que me irritava muito era quando o olhar do Tio ficava fixo no chão vermelho, entre seus dois pés, fazendo uma pequena pausa antes de recomeçar o discurso. Sua camisa, suponho, costumava ser branca também.

Tenho uma notícia, pausa, um tanto ruim sobre mim mesmo, disse . Eu tentava adivinhar o que seria enquanto ele articulava seu pensamento com os olhos bem longe.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Se eu fosse um tomate

Se eu fosse um tomate - condição absurda, tal como a de um pária da sociedade- protestaria.
Além de ser uma fruta e ter de fazer parte da salada, um tomate se estraga facilmente e por isso é exposto a muitos agrotóxicos. Não pode ser muito duro nem muito mole, muito grande ou muito pequeno- a propósito, tomates cereja deviam ser banidos da espécie. E as sementes então? Se eu fosse um tomate faria cirurgias de extração de sementes, que coisa mais nojenta! Uma gosma viscosa e esverdeada repleta de carocinhos arredondados e vermelhos ? Não, obrigado. Sementes são úteis estritamente para a reprodução, portanto seria um tomate celibatário. Ora, que diferença faria a um tomate deixar descendentes nesse mundo? Tomates são todos iguais, uns menores, outros mais saborosos mas todos iguais. Fora isso, tomates não fazem amor. Tomates podem até engraçar-se enquanto estão no pé, nos supermercados, na geladeira, mas essa paixão nunca será correspondida : uns virarão ketchup, outros molho de tomate, tomate seco, salada... Ninguém vai ao supermercado e diz antes de colocá-los no saco " Hm, você está bem rijo... escolha dois amigos!". É por isso que tomates não se apegam. Como diria uma amiga, " pego mas não me apego". É esse o lema dos tomates.
Se eu fosse um tomate seria o mais vermelho de todos. Não por timidez ou falta de protetor solar, tomates são confiantes e ouvem os conselhos de suas mães. Eu seria tão vermelho que , ao invés de parecer saboroso, pareceria letal, assim como os sapinhos da Amazônia. Ao ver-me no mercado, donas de casa me colocariam no saco e me levariam para casa, anseando uma salada nutritiva, me colocariam numa bacia d´água e iriam lavar o alface. Sorrateiramente, eu esticaria minhas longas pernas - sim , tomates têm pernas, você é que não reparou- e sairia da bacia e fugiria sem deixar vestígios. Cada tomate tem seus anseios, objetivos e faz suas próprias escolhas, mas se eu fosse um tomate teria um objetivo maior: hackear a microsoft e hipnotizar o Bill Gates. Não me pergunte como eu o faria, se você fosse um tomate, saberia o que quero dizer.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Cheira como espírito adolescente

Vinha o caminho inteiro com um palavrão entalado na garganta. Tinha virado a cara para a janela, mas nela só podia ver meu próprio reflexo- o que me remetia àquela pessoa que eu amaldiçoava em silêncio.

A cada semáforo em que parávamos, a cada freada brusca do barulhento jipe , tentava não me esfarelar. Era tão ridículo tudo aquilo, aquela encenação hilária de um aparente entendimento. "Então está certo, melhor assim". Não estava certo, era pior assim.
Pronto. Rodoviária, abriram-se as portas, tchau, vá com Deus , o jipe partiu.
Saí andando rápido, com uma mão tentando proteger a bolsa e com a outra seguro a sacola- há um homem morto em minha sacola.
Subi as escadas, ou melhor, me arrastei escadas acima. Comecei a ofegar, não sei por quê, pernas bambas, me falta ar, me falta muito . Páro um pouco perto de uma coluna suja de cimento queimado. A sacola pesa, pesa muito, há um homem morto em minha sacola.Logo percebi que não mais poderia ficar alí, me observam. Preciso ir embora, preciso muito sair daquele inferno- é essa a melhor palavra para descrever a situação, já que dividia a cena com um rockstar morto dentro de uma sacola laranja.

Não me lembro se estava só ou acompanhada, àquela altura já não via quase nada. Tentava manter a compostura, tinha um rockstar morto em minha sacola. Só queria comprar aquela passagem e sumir dali, sumir pra sempre e mandar à merda quem quer que fosse que estivesse em meu caminho, e, de fato, aquele cobrador um tanto estrábico com sotaque nordestino estava em meu caminho.
-Arujá, seis e meia - gritei.
Ele parecia não me entender, e eu era capaz de qualquer coisa. Já carregava um rockstar morto em minha sacola, qualquer adendo não seria peculiar à minha situação. Não sei porque não saí daquele guichê e fui para outro. Talvez assim não teria cedido involuntariamente cinco reais a um funcionário anencéfalo que não merecia mais que um insulto como gorjeta.

Tinha que correr, já eram 6:25, e como sempre tive um senso de direção magnífico como o de um perdigueiro morto, havia grandes chances de me embrenhar naquela selva de pessoas para lá e para cá carregando componentes de seu individualismo amarrados em carrinhos de feira até os mais diversos destinos.
Eu odiava a mim mesma , sentindo que eu nada mais era, naquele momento, que a extensão do corpo de um indivíduo a quem eu odiava tanto. Queria mais que as catastróficas expectativas dos cientistas radicais se completassem naquele momento, e que a Terra se explodisse sem deixar vestígios de que, um dia, a minha consciência sequer existiu.
Por mais que fingisse negar o fato de que havia sido gerada por um ser abominavelmente cruel e detestável aos meus olhos , no fundo o que mais queria era que ela sofresse uma duplicação e que sua cópia se tornasse aquela mãe que eu conhecia na infância , e então, ao chegar em casa, pudesse ter onde me esconder e , por um segundo, não pensar em nada do que havia acontecido naquela tarde.

Chego à plataforma 6 (esse número parecia me seguir, dispenso análises de símbolos ).
São seis e trinta e cinco, o ônibus nem havia chego, segundo o cobrador que esperava sentado num banquinho. Hesitei um pouco. Este homem sustentava traços muito semelhantes ao cobrador de dez minutos atrás, além de o sotaque ser o mesmo. Semelhanças regionais, pensei.

Encostei na grade verde, que por estar cheia de fuligem sujou toda a minha camiseta. Achei melhor desencanar, ia acabar perdendo o juízo e agindo irracionalmente. Peguei os fones de ouvido, e como uma denúncia de que aquele meio era inferior à minha condição seria um ato suicida, não escolhi a música que queria ouvir.
Após alguns minutos, me surpreendi sendo embalada pela voz do rockstar morto. Chequei a sacola, ele ainda estava lá, mesmas feições de sempre, apenas um pouco amassado por conta da sacola em que eu o carregava. Uma negação, uma negação, uma negação- era o que ele me dizia, sem parar. Realmente, aquilo estava se tornando mórbido. Tive um quase incontrolável ataque de risos , que inutilmente tentava esconder por trás da manga de meu casaco, batia um ventinho frio típico do começo da noite. O riso tonou-se histérico, assustador e histérico. Estava gargalhando em plena rodoviária, e várias senhoras acima do peso, de cabelos cujas raízes escuras desmentiam a cor dos cachos amarelados e rodeadas de crianças comendo salgadinhos de sacos maiores que elas mesmas me olhavam como se eu houvesse desligado a tv na hora da novela da Globo.
O ônibus chegou, finalmente. Já quase me esquecia porque estava lá. Dei a passagem ao cobrador, que depois de analisá-la, subui os olhos até mim, e eu o fitei como se ele também houvesse me roubado cinco reais.
Sentei bem no fundo. O riso estava adormecido sob minha pele, e logo um turbilhão de emoções me acometeu. Não estava chorando. O choro é um alívio, é uma descarga, é um sentimento.Eu estava transbordando, e me contaminava pelo chorume maldito em que minha lágrimas se haviam convertido.Aumentei o volume da música.O rockstar morto era o único que podia me exorcizar naquela hora.

Olhava pela janela, o ônibus quase vazio lentamente deixava a marginal e eu parecia me acalmar aos poucos. Sentia-me como num final de festa, qualquer que seja o significado disso.O vidro não refletia a minha imagem- essa parecia ter se apagado no momento em que me livrei daquelas gargalhadas que possuíam minha alma. Agora elas estavam soltas pelo ar, esperando encontrar alguém tão frágil quanto eu, de quem pudessem assenhorear-se.
Sabia que mais cedo ou mais tarde teria que enfrentar aquele monstro do qual eu fugia. Querendo ou não, ela me forçaria a admitir erros que, na verdade, haviam sido de nós duas.Teria de enterrar o rockstar, junto daquela rebeldia apodrecida que começava a contaminar minha alma.

A viagem mal começara e eu já estava de volta ás ruas quietas da cidade que ,por um golpe do destino, eu chamava de minha. O calçamento preto e branco encardido imitava o da metrópole, porém nada naquele projeto de avenida podia se comparar à velha cortesã que São Paulo era.
Agarrei a bolsa que deslizava por meu ombro, a sacola...?Sairia correndo atrás do ônibus se realmente não houvesse qualquer foco de hesitação em mim. Podia comprar outro pôster em qualquer lugar.

Me coloquei a andar, lentamente, rumo àquela luz amarelada vinda do único comércio ainda aberto. Parecia uma luz no fim do túnel, que provavelmente desembocaria no lugar onde menos queria estar, mas talvez fosse aquele o meu paraíso.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Além

O cigarro se apagou, as cinzas se mesclaram ao piso de azulejo que imitava mármore. Dona Mirtes secava as mãos na parte de trás do avental, deixando nele duas marcas de água .
-Poderia encher as duas mãos a quantidade de amigos que tenho, se antes amputasse todos os dedos.
-Não sou sua amiga, seu Afonso, replicava a velha arrogante.Cê me paga, eu trabalho.
Balançava a cabeça avermelhada, barba por fazer, os poucos cabelos restantes eram espetados e prateados, como vários alfinetes picando seu couro cabeludo. As pernas magras e brancas, assim como o resto do corpo, pés ossudos enfiados na chinelinha de couro comprada na feira. "Inferno!" bradava ele, e depois mirava uma escarrada do outro lado do muro. Algumas vezes, esmurrava o parapeito de metal descascado , enferrujado e pintado de cinza.
D. Mirtes, que por razão desconhecida sentou-se numa cadeira perto do patrão, avisou-o que não destruísse o pouco que havia sobrado daquela casa.
-Pouco me importa!Para ser franco, nada no mundo me importa!Quê faço eu aqui, na mesma varanda imunda de sempre, depois do que aconteceu comigo?
A velha não respondeu , não porque já havia se habituado aos constantes impulsos de inquietação do homem; permaneceu em silêncio porque não sabia o que falar e tendo ela sofrido da mesma fatalidade que Afonso , também não podia prever seu destino.
O homem subiu no parapeito, ameaçou jogar-se, mas depois de lembrar-se que teria de subir onze andares e continuar com o mesmo problema não resolvido, decidiu sentar-se na cadeira branca de plástico. Havia um silêncio tenebroso, embalado de distantes latidos de cachorro e de carros trafegando.
- Quer saber, vou rezar. Tem um terço aí, Mirtes?
A mulher olhou com máscara de sarcasmo, perguntou se tinha cara de Virgem Maria.
Ele chegou ao quarto pequeno e abafado, ligou o ventilador, acendeu dois cigarros e colocou-os na boca. Ajoelhou-se ao pé da cama, cruzou os dedos e começou. Pediu a Deus que perdoasse todos os seus pecados, enumerou os que julgava mais graves , dentre eles a vez em que explodiu (literalmente) o gato de D. Mirtes. Explicou que a vida havia sido daquele jeito por causa da mãe , que o expulsou de casa aos dezesseis anos, isso somado ao fato de não ter concluído a escola , pois tinha dislexia porque não havia mamado quando bebê. Pediu que o absolvesse e o levasse em breve ao reino dos céus, onde os homens de bem descansavam. Fez uma pausa, esperando que uma raio de luz branca o iluminasse e ocorresse a ascensão, o que não aconteceu. Disse que adoraria uma confirmação da existência divina por meio de um sinal . Não sei se foi uma manifestação em resposta , mas uma frigideira atingiu-o na cabeça. Era D. Mirtes, dizendo que já tinha quase certeza de que fora ele o assassino de seu gato angorá.
- Vou te matar, seu desgraçado!
-Já estou morto, assim como você.