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domingo, 4 de agosto de 2013

Espiando: "A garota Badamesa"

Tô escrevendo de novo. Ou começando a escrever. Ou tentando. Ou nenhuma das anteriores.
Mas A Garota Badamesa é, resumidamente, a história de uma menina que aparece misteriosamente em baixo da mesa em uma festa.
Esse é um rascunho, ainda estou estudando a personagem!

domingo, 30 de setembro de 2012

Em Flama


-Eu quero ser alguém mas você me consome.
Antes você era o fósforo que eu acendia no comecinho da noite, naquela hora em que começa a ficar escuro e a gente ainda não quer acender a luz. Com você eu nunca quero acender a luz.
Hoje eu mergulho em gasolina e peço pra você me queimar. Transfiguro-me  em capim seco pra você se alastrar em mim e não deixar uma só folha. Eu te quero acabando comigo porque eu mesma não tenho coragem de fazer isso. Já me matei muitas vezes, mas prefiro o seu jeito. O seu jeito que me deixa sempre queimando, mesmo quando você não está. Quando você se apaga, sem eu ver deixa uma centelha queimando a semana inteira. Eu só percebo na quinta ou na sexta, quando vejo meus dedos escuros como carvão e meus olhos vermelhos.
Por isso eu quero que você me queime: porque eu não consigo mais me incendiar sozinha.


Impressionava-se com seus acessos de lucidez (e nem sempre de uma boa maneira).
Mas ele sabia quem nem a ela lhe agradava ouvir o eco do que dizia nessas horas, então nem se importava.
- Você fala como se a gente tivesse uma química incrível.
- E não tem?
-Heim? Mas a gente nunca...
- Eu não estou falando de sexo.
-Você sempre está falando de sexo.
-Agora não estou.
Continuou o cigarro pelo qual tanto batalhara para gostar. Não gostava. Era só aquele gosto amargo na boca e o segurá-lo entre dois dedos que a faziam sentir-se gauche. E quando o resto todo da vida estava muito droite, ela fumava pra ser gauche. Pra dizer que alguma parte em si ainda acreditava ter alguma coisa pra tirar de dentro- mesmo que fosse só fumaça.

-A gente se entende.
-Não acho.
-Mudou de ideia? Não quer mais que eu te queime?
-Idiota.
-É sério, por que você acha que a gente não se entende?

Precisava da gauche. Fez uma pausa pra construir uma muralha de fumaça que mais ficou parecendo uma cerquinha de  arame farpado.

-Porque se a gente se entendesse... parou.  Se a gente se entendesse, a gente nunca estaria junto. Mas a gente fica junto o tempo todo porque sempre quer convencer o outro de que está errado.

Ele ouvia a voz dela por cima das cigarras em vibratto.

-É que nem carrapicho, sabe? Ele só gruda na calça porque tem atrito.
-É, bem que você é chata que nem um carrapicho.
-Vai se... foi interrompida.
-Eu entendi, carrapichenta. Eu entendi, mesmo a gente não se entendendo.

domingo, 8 de abril de 2012

Areia de mim

A casa, a cama e a chuva eram as mesmas.
Mudara, porém, quem chegava, quem deitava e quem via.
Não sentia vontade de amar nada que fosse seu. Não sentia vontade de falar sobre nada que sentia. Não queria fazer nada que precisava fazer. Seu mote era a contemplação.

Seria bom poder trancar momentos em câmaras e, algum dia, abri-las para encontrar um passado intacto.
As dores, os cabelos, as tempestades. A cor das paredes. A pureza inconsciente. O claustro, a ansiedade por crescer e descobrir a vida. Os fins de mundo. A música. As horas.
Mas a vida se reformula e o que sobra é uma carapaça calcária de todas as coisas. Essas carapaças vão se amontoando,  batendo umas contra as outras e acabam formando uma areia cada vez mais fina de pedaços de tudo o que passou. Como toda areia, serve para construir coisas novas. Mas,ao mesmo tempo, pode criar um deserto inabitável, intransponível e infinitamente vazio.

Esse era seu areal.

domingo, 29 de novembro de 2009

Da impotência

Só esperei alguma coisa acontecer. Não sabia o que era, não esperava nada específico. Só fiquei ali, imóvel, e me sujeitei a o que quer que fosse. Não via, não sentia, e o pensamento só não era inexistente por conta de uma fina chama amórfica que persistia em queimar entre o nariz e a testa. Tudo o que eu era naquela hora compreendido entre o nariz e a testa.
É uma sensação de fade out lenta e gradual. As bordas começam a escurecer e a ação se torna mais lenta. E de pouco em pouco eu ia, em fade out, da filosofia ao caos.
Foi o caos mais tranquilo da minha vida, talvez porque eu não estivesse realmente presente, ou talvez porque a morte seja assim mesmo. Uma cascata que goteja, um tiroteio sem ruídos, uma festa sem ninguém. Não vale a pena descrever, é a impressão que fica que você um dia deveria sentir. Um dia você vai sentir, por mais que eu queira protegê-la disso. Não dói, não é triste, e nem espere ver a luz branca. Não espere ver qualquer luz no fim do túnel; não há túnel. Você pouco a pouco se torna inerte, e mesmo que quiser não consegue reverter. É a morte, é o fim, mas você não consegue lutar contra isso; você não quer lutar contra isso. Uma espécie de suicídio involutário, onde a conformação vem junto da meia-luz. Quando a gente morre, qualquer hora vira pôr-do-sol .